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Clube do Distrito Federal tem refugiado iraquiano

O jovem Ali Taha saiu de um campo de refugiados na Jordânia e realizou no Brasil o sonho de ser jogador de futebol profissional. Ele é atacante no Brazsat, um clube recém-criado que disputa a segunda divisão do futebol do Distrito Federal.
José Antonio Lima

Jogar futebol era a única diversão do jovem iraquiano Ali Khaled Abu Taha, de 19 anos, durante os quatro anos que ele permaneceu no abrigo de refugiados de Ruweished, na Jordânia, para onde sua família fugiu em abril de 2003, após a queda do ditador Saddam Hussein. Em campos improvisados, ele atuava sem camisa ou chuteiras. Hoje, é um jogador profissional – e no Brasil. Ali é o atacante do Brazsat, um time recém-criado que está na segunda divisão do futebol do Distrito Federal.

Antes de chegar ao futebol brasiliense, Ali viveu, entre setembro de 2007 e maio deste ano, em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, acolhido pelo programa de reassentamento de refugiados das Nações Unidas no Brasil. Ele e seus familiares faziam parte do último grupo de palestinos do campo de Ruweished, hoje desativado. Quando soube que seu destino era o Brasil, Ali ficou muito feliz. “Eu pensei que finalmente teria minha vida de volta e que não havia lugar melhor para realizar meu sonho de ser jogador profissional”, disse a ÉPOCA, em um português surpreendente para quem está há pouco mais de um ano no país.


SONHO REALIZADO
Ali Taha, ao assinar o contrato de jogador com o Brazsat FC


O futebol é uma das poucas diversões das criançasO sonho começou a se concretizar quando o repórter Deddah Abdullah, correspondente da TV árabe Al Jazeera, foi a Mogi das Cruzes e conheceu Ali durante uma reportagem. Na época, o jovem já atuava num clube amador da cidade. Abdullah, então, o indicou para um amigo, o empresário João Gilberto Vaz, dono da Brazsat, uma empresa de gerenciamento de projetos espaciais. Vaz havia acabado de fundar o Brazsat Futebol Clube, um clube-empresa que estava na terceira divisão do Campeonato do Distrito Federal. “Nós ficamos comovidos com a história dele e ele sabia jogar. Por isso, assinamos um contrato de dois anos”, afirmou Vaz.

A identificação de Ali com o futebol brasileiro vem desde a infância. Nascido em Bagdá, ele cresceu torcendo por nossa seleção nas Copas do Mundo de 1998 e 2002. Só não acompanhou a seleção brasileira no Mundial de 2006 porque estava no campo de refugiados, onde não havia nenhum televisor. Do período em que viveu como um expatriado, ele só gosta de se lembrar das partidas de futebol e de um dia em que a atriz americana Angelina Jolie visitou o local, onde as famílias sofriam com mudanças extremas de temperaturas, no meio de uma área desértica. “Ela foi conhecer as crianças do acampamento, que não eram só palestinas. Havia gente da Somália, do Sudão, curdos.”



PASSATEMPO - No campo de refugiados de Ruweished,
o futebol é uma das poucas diversões das crianças

 

Adaptação na equipe

A chance de jogar profissionalmente obrigou Ali a se separar da família pela primeira vez. Ele deixou os pais e os irmãos em Mogi das Cruzes e partiu para Recanto das Emas, cidade-satélite de Brasília. Seria mais uma adaptação em sua vida, mas Ali superou rapidamente as diferenças culturais. “Sempre fui bem recebido. O Brasil e os brasileiros me deram muito, e eu só posso agradecer.”

No Brazsat, Ali enfrentou também o problema de ter um preparo físico muito abaixo do apresentado pelos companheiros, em parte por causa das privações no abrigo jordaniano. Por isso, teve poucas chances na primeira temporada, mas deu sorte: seu time foi campeão da terceira divisão. “Desde o fim do campeonato houve uma grande evolução em seu preparo, e o Ali certamente vai ter muitas oportunidades em 2009”, afirma Alex Gomes, treinador do Brazsat. A comissão técnica leva em conta nos treinamentos as particularidades do islamismo – a religião de Ali –, como as preces diárias e o Ramadã, época em que os muçulmanos jejuam durante o dia.

O treinador classifica Ali como um atacante voluntarioso, que não desiste das jogadas e não é “fominha” – aquele tipo de jogador que prefere concluir a jogada sozinho a passar a bola para um companheiro. “Para chegar a um grande clube brasileiro ele precisa melhorar bastante, mas no Oriente Médio e no futebol asiático poderia jogar tranqüilamente”, avalia Alex Gomes. Se conseguir isso, Ali estará perto de conquistar outro sonho. “Minha origem é palestina e quero jogar pela minha seleção.”



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