Refugiado
palestino mostra seu futebol
em
time de Brasília Brasília

Jogar futebol sempre foi umas das brincadeiras
prediletas do jovem palestino Ali Abu Taha. Tanto no Iraque – país
onde nasceu – quanto no campo de refugiados onde viveu
por quatro anos, ele jogava com os amigos e sonhava em se
tornar um profissional do esporte. “A gente jogava
para se divertir. Não tínhamos chuteiras nem
uniformes, apenas uma bola”, lembra. Ali, que tem 19
anos.
Em setembro de 2007, ele desembarcou
no Brasil com outros refugiados palestinos vindos do arenoso
campo de Ruweished, no deserto da Jordânia, e beneficiados
pelo Programa de Reassentamento Solidário. Um ano
depois, com muito esforço e dedicação,
Ali começou a realizar o seu sonho.
Hoje, ele é atacante
do Brazsat, um time de futebol profissional que disputa a
segunda divisão no Distrito Federal. Ali treina regularmente
com os outros companheiros de equipe e já se comunica
em português. “Quando cheguei, não estava
falando bem. Agora está melhor. Tenho uma galera que é muito
beleza”, diz, arriscando algumas gírias. “Estou
melhorando fisicamente. É um trabalho para o futuro”,
avalia o jogador. Quando chegou no Brasil, Ali e sua família
foram reassentados no interior de São Paulo, onde
estava trabalhando e estudando. Com o início da carreira
de jogador, teve que se mudar para Brasília, onde
mora em um apartamento alugado pelo clube. “Meu pai
também gosta de futebol. Acompanhamos a seleção
brasileira nas Copas de 98 e 2002, e também na Copa
América”, ressalta Ali, que costuma visitar
os pais e os amigos palestinos que vivem no interior de São
Paulo.
Ali Abu Taha faz parte do grupo
de 108 refugiados palestinos que chegou ao Brasil entre setembro
e outubro de 2007. Estes homens, mulheres, jovens e crianças
vivam no Iraque mas tiveram que deixar o país após
a queda do regime de Saddan Hussein, pois passaram a ser
perseguidos por diferentes milícias. Chegaram à fronteira
com a Jordânia e foram alojados em um campo onde as
condições de vida eram précarias, com
mudanças climáticas bruscas e tempestades de
areia frequentes.
As aulas de português
começaram logo após a chegada ao Brasil. Em
2008, o jovem passou a frequentar uma escola pública
e retomou os estudos no segundo ano do ensino médio.
Além de estudar, passou a trabalhar numa loja de molduras
para quadros e jogava futebol com os amigos em um time amador
da cidade. “Meu conhecimento do idioma ainda era muito
restrito e tinha dificuldades em acompanhar as aulas. Nas
provas, perdia muito tempo traduzindo as questões.
Por isso, decidi sair da escola e aprender mais o idioma
antes de voltar a estudar”, explica ele.
Foi então que surgiu
o convite para jogar no time profissional Brazsat, de Brasília.
Ali conta com a simpatia da equipe técnica e da diretoria
do Brazsat. “É um exemplo de perseverança
para toda a equipe”, afirma o técnico Alexsander
Gomes. “Para nós, ele é motivo de carinho
e respeito”, diz o diretor de futebol, José Benedito
Bonetti. “Estamos orgulhosos por ser o primeiro time
de futebol do Brasil a ter na equipe um refugiado”,
afirma o presidente do Brazsat, João Gilberto Vaz.
Ao completar seu primeiro ano
no Brasil, Ali espera continuar crescendo como jogador profissional. “Esperava
retomar meus estudos e cursar uma faculdade de Direito. Mas
acabei realizando um sonho, que jogar futebol no Brasil.
Vou continuar lutando para chegar a um grande time brasileiro”,
revela o garoto.
Por Luiz Fernando Godinho e
Valéria Graziano
Data: Sexta Feira – 26 de Setembro de 2008 |